terça-feira, 7 de julho de 2009

A Fábula do Parquinho


Sabe aqueles dias gostosos?...

Tardes de Outono! A temperatura tem todo o jeitão que vai cair você pensa em um agasalho, mas, no final, sabe que a noite será uma delícia.


Pois é! Era um dia assim, uma tarde assim. Um daqueles dias onde não há como estragar, ou não deveria haver.


Joãozinho estava todo prosa, e tinha todo o motivo de estar, sua bola nova, linda, vermelha, brilhante, nem tão leve nem tão pesada, apenas gostosa de se brincar. E lá foi ele, todo feliz para o parquinho pelas mãos de Lucelene, a babá... Não! Babá não! Lucelene era um anjo que cuidava dele quase com o afeto da mãe que tão desvelada em carinhos e cuidados quando as tarefas do lar e o trabalho na loja o permitiam, deixava-o aos cuidados daquela jovem mais que amiga, quando essas mesmas tarefas a tomavam.


O pequeno João chegou no parquinho com o coração aos pulos, todos os amiguinhos estavam ali, todos que ele chamara para sua festa no Sábado que se aproximava, estavam entre os escorregas, os balanços, os cavalinhos de latão, as trilhas de areia e os pneus pintados. E João sabia que todos iriam ver sua bola nova, que todos iriam brincar com ele e sua bola nova... A festa de Sábado estava chegando!


E assim foi! A meninada brincava com todo o fôlego dos homens e mulheres do futuro, com toda a inocência e santidade dos pequeninos que da vida, só sabem sorrir. Corrida, pique-pega, balanço, escorrega, pique-esconde, lanchinho e... Futebol!


Futebol! O pequeno João não era exatamente um craque, mas gostava do jogo, não gostava de competir, nem do natural enfrentamento entre os meninos na hora de dividir uma bola ou correr para chutar em gol, mas ele estava tranquilo, a festa de Sábado era aguardada por todos, todos queriam ir à festa onde o palhaço "Pebolim" iria apresentar seus truques de mágica e suas brincadeiras... E a festa era do João, o João que estava ali entre eles, brincando, chutando, correndo.


Em uma dessas idas e vindas do velho "esporte bretão", João e Juquinha esbarraram e foram ao chão, arrastando-se na areia do parquinho, ralando joelhos, sujando shorts, coisa de criança que Juquinha, menino levado que morava na casa do final da rua, nem ligou, levantou e já deu um chute na bola, direto para o gol, e quase que marcou o danado, levando os dois times à gritaria e algazarra natural nessa idade de sonhos e brinquedos. Enquanto todos corriam atrás da bola, Joãozinho levantou-se espanando a areia e gritou com Juquinha, disse que ele não podia ter esbarrado nele, que fora de propósito, que doera e tinha sido falta, o quase gol não valera.


Todo mundo ficou meio sem ação, ninguém vira nada, ninguém percebera nada. Juquinha - como já disse um garoto levado - nem ligou, olhou para o João e riu, riu da cara dele, riu das roupas sujas, riu do joelho ralado, riu como toda criança deve, sempre, poder rir. E todos riram também, todos, crianças que eram - meninada sadia -, riam daquilo que, para todos, era mais uma brincadeira do aniversariante do Sábado.

Só Joãozinho não ria mais, só Joãozinho não queria mais brincar, só Joãozinho levantava a mão e desferia um soco em Juquinha que, malandro que era, desviava e, ainda rindo, empurrava o agressor dizendo bobagens de criança.


João caiu e ficou esperando os amiguinhos o ajudarem a levantar, caiu e ficou esperando os convidados da festa de Sábado ralharem com Juquinha, dizerem coisas para o menino malandro da casa do final da rua, caiu e ficou esperando que lhe entregassem a bola... Mas as crianças são crianças e quando uma ri gostoso, todas riem gostosamente, pois é assim que criança é. Criança é criança!


No meio da algazarra, João, o ranzinza, tomou a bola das mãos de quem estava com ela fosse lá quem fosse, pegou a bola, botou debaixo do braço, fechou a cara e foi, choramingando, ter no colo de Lucelene, lacrimejando uma coisa que criança que é criança não sabe o que é. João sentia raiva. Raiva do Juquinha, raiva do parquinho, raiva da bola, até de Lucelene que lhe pedia voltasse a brincar. Juquinha chamou João que fez ouvidos moucos, Juquinha chamou novamente e de novo e mais uma vez, mas João, o ranzinza, não queria conversa com Juquinha, não queria conversa com os times, não queria conversa com ninguém no parquinho. João gritou com Lucelene, que se espantou com o seu Joãozinho, sempre tão calminho, sempre tão amigo e, ali naquela hora, uma pequenina e patética ferinha.


João que estava com a bola debaixo do braço, gritou novamente, gritou que não iria mais brincar, gritou que não iria mais emprestar a bola, gritou que Juquinha era um lixo, gritou que ele não podia ir à sua festa e que todos não iriam mais a sua festa e que Lucelene não iria mais a festa, que o bolo, os balões, os doces, o palhaço Pebolim eram só dele e que todos, todos, todos que não se renderam a sua autoridade de dono da bola e dono da festa, não estavam mais convidados, não poderiam mais aparecer lá no prédio dele, que ele iria falar com seu pai, o síndico, que ninguém do parquinho poderia ir à festa, ninguém, ninguém, ninguém...


No Sábado, João estava calado, sozinho, olhando o palhaço Pebolim fazer suas mágicas, afinal o artista já fora pago para isso. O pai, indignado com os agressores do parquinho que tinham surrado seu filhinho, dera ordens aos porteiros: "ninguém daquele parque entra aqui, ninguém!" e ninguém entrou, mas não porque os porteiros fossem azedos ou de coração duro, ninguém entrou porque ninguém foi à festa. Ninguém quis ir à festa.


No Sábado, enquanto no playground do prédio uma festa silenciosa acontecia, a algazarra no parquinho avisava a toda a rua: "Tem criança feliz no parquinho!"



Até a próxima!


José Vasconcellos

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