segunda-feira, 8 de junho de 2009

AS PALAVRAS, VOCÊ E OS OUTROS

Ah! As palavras!

Quando são ditas, não podem voltar atrás e, muitas vezes, ferem irremediavelmente. Como a flecha que busca o coração da vítima de forma infalível, também as palavras, inevitavelmente, matam. Matam uma relação, matam uma amizade, destroem um amor ou sepultam uma carreira.

De outra forma, quando escritas, as palavras têm uma complexidade inevitável. Elas não possuem emoção, não trazem entonações nem tão pouco, expressividade. Estão apenas lá pintadas em um papiro, rabiscadas em um papel, ou digitadas em alguma tela, nesse último caso, expressas com a urgência do mundo de hoje. Uma premência tão absurda que muitos de nós já não podem mais perceber. Uma ansiedade inescrupulosa que nos arremessa ao engano ou, quando menos, uma interpretação equivocada.

As palavras precisam de tempo para ser digeridas e, virtualmente, precisam sempre ser retrucadas com perguntas, caso contrário é uma temeridade acreditarmos que sabemos a que ponto conseguiremos chegar, se estivermos em uma discussão.

As palavras! Autores recolhem-se ao texto bastante bem definido, sem chances de equívocos ou que deixem interpretações, todas, agradáveis. Poetas, estes, evocam a emoção trazendo imagens que não permitam que as palavras – sempre esfíngicas - sejam somente lidas, às vezes, sequer vistas. Políticos as usam da forma mais pérfida que se possa alcançar, sempre.

Você leu até aqui esse monte de palavras e, em algum momento ou o tempo todo, achou que eu estava me dando o direito de ser “poético”.
Ledo engano! Pode até parecer que existe poesia nas palavras acima, mas antes disso existe uma lição:

“A comunicação em um ambiente corporativo,
necessariamente, deve ser clara, objetiva e translúcida.”

Se você não sabe, vai saber, de histórias sobre comunicações mal feitas, diálogos mal ajambrados que finalizaram negócios de forma trágica, corporativamente falando, ou não.
Uma pesquisa encomendada por uma consultoria inglesa mostrou que 80% dos gestores seniores de mais de 300 empresas da Inglaterra acreditam que sua organização não será capaz de cumprir os objetivos estratégicos, e metade desses entrevistados afirma que o CEO fez promessas aos acionistas que não podem ser cumpridas. E sabe o que é visto como o possível motivo para isso?
Acertou! Falha de comunicação!

Por que essa conclusão? Bem! Essa pesquisa também mostrou que cerca de um terço dos gestores – que, na maioria das vezes são os responsáveis pelo bom andamento das divisões - afirma não compreender a estratégia corporativa bem o suficiente para implementá-la. Daí as perguntas:

Se não entendeu, por que não procurou elucidar as dúvidas?

Não entendeu por quê? O que faltou? Até que ponto estava claro a apresentação das metas ou – lembrando da premência de nossos tempos – houve tempo para interrogações? Houve espaço para elas? Ou alguém (bem lá no alto da pirâmide) assumiu como correta a exposição das metas e todos os demais se calaram?

Certo! Eu sei que abro dúvidas que parecem não responsabilizar diretamente as palavras como estava dizendo antes, mas também aí, a falta delas contribuiu para esse quadro, no mínimo triste, encontrado pela empresa pesquisadora.

Acho que todo mundo conhece (quem não conhecer pode procurar porque “tem-no-google”) aquela piada anosa sobre o presidente de uma empresa que manda uma mensagem para a diretoria pedindo para que seus funcionários tivessem uma hora livre para ver o cometa Halley passar e termina... (Ah! Não vou contar né?!)

Pois bem! Essa piada - apesar de sê-lo - é um excelente exemplo do que pode acontecer em uma empresa, aí levando em consideração os diversos níveis da pirâmide administrativa.

Acredito que qualquer um sabe como pode ser enfadonha a leitura de um auto judicial, não é mesmo? Acontece que, essa área é uma daquelas onde as palavras, literalmente, podem matar – apesar de nosso País não adotar a insidiosa pena de morte -, imagine uma sentença aberta a várias interpretações? Podemos chegar ao cúmulo de vermos um criminoso ser liberado logo após o julgamento em que foi condenado.

Por favor, não vamos nos prender aos deploráveis exemplos que temos nas matérias de jornal, pois esses servem mesmo é para corroborar com o que estou dizendo, afinal a soltura de alguns que bem conhecemos, deu-se graças à possibilidade de interpretação dúbia nesse ou naquele processo específico.
Deixemos os juristas com seus problemas e vamos concluir em nossa área, a de TI, apesar de estar claro que o problema é multidisciplinar.

Mais especificamente: um use case mal formulado, no mínimo pode dar problemas no prazo pré-determinado para o desenvolvimento de um sistema; uma reunião para elaboração de uma lista de pré-requisitos, se não for bem orientada, resulta em um desastroso contratempo mais adiante de um projeto e por aí vão os exemplos, até singelos, que podem ser enumerados.

Mas isso nem se compara a má interpretação de algum e-mail corporativo sobre essa ou aquela situação gerencial. Aí estamos falando de demissões, mesmo. E não creio que ninguém que leu esse pequeno texto tenha alguma vontade de passar por essa desagradável experiência.

Então, por favor, escrevam seus e-mails com o máximo de calma que puderem encontrar, conheçam bem as palavras que usam. Quando receberem e-mails procurem lê-los de forma “desarmada” tentando entender o que querem dizer e nunca se acanhem de perguntar o quê, quem o enviou, quis dizer com essa ou aquela frase; façam copydesk antes de enviá-los; passem o texto a ser enviado pelo Microsoft word, pode não ser lá essas coisas, mas ajuda um bocado; e, acima de tudo isso, leiam, leiam muito, leiam bastante, seus cérebros agradecem, nossa língua pátria e a inteligência nacional também.


Até a próxima!

José Vasconcellos

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