- "Mas onde seu pai vai comprar isso?"
- "Ah! No shopping!"
- "Mas ele vai comprar mesmo? Você tem certeza?"
- "Vai! Eu já disse que eu quero muito e..."
Pois é! O cara quer muito, tá na moda to-do-mun-do-tem! E vejam que estou falando de crianças na faixa etária entre 10 e 12 anos!
Trazendo para o foco da TI (ou TIC, se preferirem): alguém já percebeu a quantidade de cursos de "governança de TI" que apareceram por aí?
Eles chegaram aos borbotões, às pencas, aos tubos... E se estou falando de cursos de “governança” é porque
Para piorar posso lembrar uma quantidade absurda (ao menos para a época) de cursos de datilografia, mas isso vai soar meio alienígena para alguns que lerem, além do que vou ser arremessado milênios atrás, quando esse tal de computador, ao menos como o entendemos hoje, era um brilho nos olhos de John von Neumann.
O modismo é algo visceral e que, quase sempre, embota o raciocínio daquele neófito que sonha em transpor o portal do universo TI e começa com a "linguagem da vez". É verdade! É verdade sim, mesmo frente à corretíssima visão de que o iniciante começa de baixo com alguma linguagem ou processo de desenvolvimento específico, o modismo aparecerá para, em um primeiro momento que pode durar meses ou anos (nunca semanas), jogar no chão um processo evolutório que bem poderia ser mais rápido, mas, encontrando essa resistência pacífica dentro do próprio sujeito (essa fascinação pelo modismo), o faz purgar, mesmo que, muitas vezes sejam positivamente, alguns poucos (ou muitos) anos de espera. Sim, é claro que não podemos esquecer que essa “espera” tem seu lado positivo, o passar de uns tempos trás à pessoa o peso da experiência que, conforme seja esse prazo, vai envergar mais ou menos seus ombros e permiti-lo ou não dar-se ao direito de um novo começo seja completo ou ainda dentro da profissão que resolveu abraçar naqueles tempos de jovial presunção.
Não estou criticando a atualidade, não estou nem questionando a atualidade, mas estou, realmente, querendo entender quando e por que o modismo se tornou uma peça tão fundamental do consciente coletivo e como é possível, tão tranqüilamente, sequer permitir-se tentar vislumbrar o futuro, um desejo tão arraigado no ser humano que elevou a condição de quase reis alguns que, seja lá por quais motivos tenha sido, souberam faze-lo com precisão assustadora.
Isso de “é moda então eu quero” existe hoje de tal forma que é quase um “grande equalizador das gentes”, como o é, unicamente, a morte.
É! Talvez seja isso! Assim como a morte é o verdadeiro equalizador, essa igualização imposta pelo modismo, também mata, por um período mais longo que o que qualquer um gostaria, o verdadeiro anseio pessoal que cada um de nós trás do útero. A vontade de crescer e evoluir fica tolhida sob grossas camadas de marketing de seja lá o que for o que é “up” na hora, assim, a capacidade inerente ao animal pensante que pensamos que somos, morre por um período que enquanto para uns é passageiro em vida, para outros passa com a chegada da verdadeira equalizadora, ou segue junto talvez.
Estando em dia com o modismo e suas sempre incertas marés, o indivíduo fica satisfeito, pois está “up-to-date” para aquele grupo e se conforma, ou melhor, se resigna com isso e o anseio pelo que o espera em um futuro indecifrável, a vontade de se antecipar às sortes da vida, a necessidade de planejar os passos que virão para executá-los com firmeza e confiança, simplesmente, fenece!
Para mim, o mais complicado nisso tudo é que o modismo é quase natural dos jovens (eu já fui jovem, garanto que é assim) o que me faz olhar com uma expectativa funesta para o futuro que nos aguarda.
Tudo bem! Tudo bem! Você bem pode dizer que sou um “saudosista” de tempos que, felizmente, passaram dando lugar a um novo presente ou que sou um antigo que não caminhou junto com seu tempo, mas pense bem, tenho 50 anos, sou da TI (ou TIC), já fui da informática e do grupo que trabalhava com o tal do cérebro eletrônico, nesses últimos 20 anos, por baixo, busquei estar sabendo (até faço meus “gerundismos”, viu?!) do que acontecia no momento, mesmo que falhando miseravelmente algumas tantas vezes. Vivo e convivo com uma galera mais nova quase que desde o início disso, sempre digeri muito bem o que aparecia por aí e, esse é um prazer que me reservo, em tribos diferentes, até mesmo de lugares diferentes o que me permitiu deixar a mente exatamente como o pára-quedas funciona, aberta. Mas, de repente, o modismo passou a ditar os caminhos de uma maioria, ficou difícil ver o cara correr atrás de saber uma linguagem pelo prazer de saber em prol do que estava em evidência no momento. Aí ficou complicou!
Se, por acaso, delego responsabilidade ao mercado por isso? Ora! Mas é claro que sim! Sua “onipresença” e premência obrigam o neófito há esquecer um pouco seus desejos, ainda “verdes”, por um “lugar ao sol”, daí por diante fica automatizado em alguma cron¹ no cérebro do sujeito a busca pelo que está “up” naquela época, seja ela qual for.
E o planejamento em prol do que o indivíduo realmente gosta se torna um refém do que o mercado dita como “the must”!
Planejar é um verbo transitivo que não freqüenta as comunidades do Orkut. Mas por quanto tempo?
Até a próxima!
¹ cron: Não é um deus do período sumério adorado por Conam, o bárbaro, é a redução bastante utilizada de “crontab” nome dado ao diretório/pasta onde se localizam scripts de automatização de tarefas no UNIX/LINUX. Também “rola” no WINDOWS, mas lá chamam de “Tarefas Agendadas”, o que dá no mesmo.
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