Responda rápido: O que é uma boa discussão?
Talvez, antes disso, alguns pensem algo parecido com: “Eu odeio discussões!” Ou repudiem minha pergunta, simplesmente, lampejando: “Discussão é coisa dos que não sabem dialogar!”.
Seja como for, todos estarão certos, e igualmente errados!
Odiar uma discussão ou considerar uma rusga (eu disse rusga) como sendo um reflexo da incapacidade de dialogar está bem próximo do certo, do real ou do compreensível.
Mas está assim tanto quanto está bastante incorreto! Por quê?
Ao contrário da visão mais imediatista, as discussões existem para que as partes envolvidas, sejam lá quantas forem, ponham suas discordâncias à prova.
Através da exposição e defesa de idéias todos os envolvidos ganham por tornarem-se aptos a perceber melhor esse ou aquele outro ponto de vista sobre uma determinada situação e, muitas vezes, até outras situações que se apresentam durante o debate. É um momento único onde bem podemos explicar tanto quanto podemos aprender algo sobre seja lá qual for o assunto pertinente à conversa, e seus assuntos periféricos, por assim dizer.
Eu disse conversa? Sim! Disse sim! Porque é exatamente isso que uma discussão é e precisa necessariamente ser entendida, uma discussão é, exatamente, uma conversa! Uma conversa entre partes que, muito antes de impor, querem e precisam entender mais e melhor as diferentes idéias sobre o que quer que seja o assunto em questão.
E o outro lado? Essa conversa, que é a forma mais racional e objetiva de se enxergar uma boa discussão, tem sua placidez quebrada pelos integrantes do grupo, nós, os homens, ainda primatas que, em algum lugar escuro nos recônditos de seus intelectos guardam a pata empunhando o galho de árvore o qual serve muito bem para impor sua “superioridade”, um equívoco imperdoável esse, o de se ver “acima da média”, seja nas religiões, na política ou em qualquer outra área do “conhecimento” desse grupo que habita o planeta.
Tudo bem! Admito que a figura é quase ofensiva, mas não existe lá muita diferença entre dois ou três torcedores de dois ou três times diferentes, debatendo e berrando suas visões pessoais (principalmente em uma mesa de bar), e dois ou três primatas berrando sobre quem vai ficar nesse ou naquele galho, ainda mais se os galhos estiverem à mesma altura. Vamos lá, imagine comigo: três caras discutindo avidamente por seus três times (seja lá de que esporte for), e três chimpanzés berrando suas vontades. Isso até aquele momento em que um deles, símio ou não, resolve que sua vontade é a única que pode estar correta e, por isso mesmo, é a que deve prevalecer. É quando aparece o galho, a garrafa, a faca, a pata ou o trovão!
É também quando todos os motivos, justíssimos, para os que odeiam uma discussão, aparecem!
Mas eu insisto, e insisto em nome de nós mesmos, que esses motivos aparecem, não pela discussão, não pela oportunidade de aprender muito mais apenas interpretando as opiniões de terceiros, eles brotam unicamente de nossa arrogância ou da prepotência ainda inata que arrastamos como uma âncora presa em nossas cinturas, prepotência essa atada ao antigo erro de não saber discutir.
É isso mesmo: “não saber discutir”! Por quê?... Você sabe mesmo discutir? Tem certeza?
Quando foi a última vez que tentou defender uma idéia ou uma posição específica? E por quanto tempo conseguiu se ater aos fatos e ao cerne da questão, sem tropeçar em assuntos periféricos, motivos equivocados, conseqüências escusatórias ou desculpas esfarrapadas de suas próprias dúvidas, às vezes apenas para não dar o braço a torcer, com certeza perdendo uma excelente oportunidade de aprender um pouco mais sobre alguma coisa ou, até mesmo, dar um breve exemplo de retidão?
Eu canso (e você também se prestar atenção) de presenciar discussões onde o cerne do assunto, o motivador principal, o gerador da diferença de opinião é esquecido na maioria dos discursos em prol de exemplos, explicações de fatos, exposição de conseqüências daquilo que se quer debater realmente e daí para pior. Tudo isso sempre deixando de lado a oportunidade, felizmente nunca única, de se aprender mais sobre essa ou aquela opinião, sobre esse ou aquele assunto que pode ou não acompanhar a maioria do grupo durante toda a vida ou boa parte dela
É claro que não estou aqui para dizer a você como proceder - e quem sou eu para isso? –, mas por favor, sonhe comigo só por um momento: como seria a sociedade se nesses últimos 500 anos o homem tivesse mais vontade de entender e, aí sim, poder rebater o que o outro está dizendo ao invés de, apenas, fazê-lo calar-se com um galho qualquer ou alguma inquisição estúpida?
Até a próxima!
terça-feira, 21 de outubro de 2008
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