sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?


As quatro loucuras da sociedade.

Primeira: "Todos têm de ter sucesso, não existem significados individuais.";

Segunda: “Você tem de estar feliz todos os dias.”;

Terceira: “Você tem que comprar tudo o que puder.”;

QUARTA: “Você tem de fazer as coisas do jeito certo.”


Em 2005, por volta de Outubro, a revista “ISTO É” publicou uma reportagem de Roberto Shinyashiki que você já deve ter recebido em algum PPT da vida, “CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS”, nela o escritor falava sobre como àquela época (2005) a sociedade tinha caminhado para um ponto de valorização do “fake”, do “parecer ser” em detrimento do “efetivamente ser”, veja só isso, em 2005 já era antiga a preocupação com aquilo que, na barra dos tribunais até poderíamos chamar de “falsidade ideológica”.

De lá para cá, das quatro loucuras da sociedade citadas naquela matéria (CUIDADO! São quatro e não três como, talvez, você possa ter lido em algum dos vários PPTs por aí!), justamente essa “quarta loucura” tem sido desconsiderada como loucura de forma quase orquestrada. Em prol do quê, é algo que vale muito a pena tentar entender bem ou, ao menos, ter uma visão mais crítica.

Essa “quarta loucura” é: “Você tem de fazer as coisas do jeito certo.” Ao contrário da afirmação categórica (e corretíssima) de Shinyashiki de que isso não existe, e já com essa óbvia resposta na cabeça, eu vou perguntar: Mas qual é esse tal jeito certo?

E vou um tiquinho além: quem é que tem todo esse cabedal de conhecimento para poder olhar você nos olhos e dizer “qual é o jeito certo” para você fazer alguma coisa que você faz e te deixa satisfeito ou saciado? Afinal quem delegou a essa “entidade poderosa” o direito ao juízo de como você deve ou não deve agir no seu dia-a-dia em busca de suas próprias realizações?... Mas atenção, eu estou falando das suas realizações, dos seus desejos, das suas vontades e não daquilo que te impõem como sendo o que deve ser! E para responder a minha pergunta, antes de mais nada, você precisa se desvencilhar dessa tal “entidade” que já o rodeia há muito tempo, você precisa ter muita certeza daquilo que você quer e não do que te dizem que é aquilo que você precisa querer, ou o que se deve alcançar, ou o que é absolutamente necessário para a sua felicidade!

Posso adiantar, não é fácil, não é simples e, com relativamente bastante dificuldade, você pode tentar conseguir separar, dentro de você mesmo, seus desejos dos desejos impostos pelo “tudo” que nos cerca.

Houve um tempo em que o ser humano tinha a opção de, simplesmente, ser feliz, sem disputas, sem guerras, sem rodeios e, muito menos regras de felicidade, ele apenas era feliz. Então veio a estranha e descabida “necessidade de sucesso”, aliás, a primeira loucura segundo Shinyashiki. Mas qual sucesso? Que sucesso? Como, isso de sucesso? Sucesso em que? Em viver sua própria vida? Em realizar-se dentro do que ele entendeu como viver a própria vida? Então, novamente, vem a perguntinha clássica: “Mas quem instituiu esse tal sucesso?” e mais uma, talvez até mais séria ou que pode nos fazer pensar um pouco sobre tudo isso: “E quem disse que ter essa visão de sucesso é ser feliz?”

É claro que não tenho nada contra o tal sucesso, eu mesmo quero ter sucesso.

Sucesso em criar meu filho, sucesso em ser um bom marido, sucesso em manter unida e feliz minha pequena família e, lógico, sucesso no meu trabalho, mas aí, esse último eu o quero porque ele representa uma base boa e feliz tanto pelo fato de eu fazer alguma coisa que eu gosto em uma área que eu gosto como, é claro, meus proventos contribuem bastante para resolver os empecilhos do dia-a-dia e que podem de várias formas, gerar problemas para minha família

E aí eu me lembro de outra coisa (e começo a chegar onde queria): houve um tempo em que a visão geral era de que o trabalho existia para o sustento de quem labutava; que o trabalho tinha como foco principal, mesmo que velado, o homem; ele existia sim para atender as necessidades sociais que demandavam procedimentos corporativos mais complexos mas, antes de tudo, ele existia para atender as necessidades do homem.

E por que, de repente, ele se tornou o foco principal? Por que ele, o trabalho, que é a lenha das fornalhas corporativas tornou-se o viés da sociedade?

Talvez pelo mesmo motivo que Shinyashiki detectou as “quatro loucuras” da sociedade, o fato dessa sociedade querer definir o que é certo e, é claro, essa mesma sociedade estar muito além da simples cooptação com a corporação, essa última como uma grande entidade!

“Ih! Lá vem ele!” – Você pode até pensar! Mas devo me obrigar a deixar claro que, contra corporações não tenho absolutamente nada, trabalho para uma afinal de contas, mas sobre essa mesma querer me dizer o que é certo para mim, aí já é uma outra história.

E volto ao inteligente Shinyashiki, e sua matéria da VEJA de 2005 onde o mote central daquela entrevista (se você quiser ler no link lá embaixo), foi o corretíssimo combate a supervalorização da aparência coisa que, simplesmente, tiraniza os meios de comunicação e, é claro, em especial, a internet.
Esse sintoma de supervalorização de si mesmo é, apenas, a ponta de um iceberg cuja massa principal é o: “você precisa ser o que queremos que você seja”, e aí, meu caro leitor, se você está com dificuldade de fazer o que sugeri mais acima, separar o que você quer daquilo que dizem que você quer, vem uma outra sugestão em tom de quase súplica: “tenha certeza de ser você mesmo, liberte-se!”.

A “massa do iceberg” que disse acima já chega como conseqüência da “quarta loucura”, e também reiterando-a, afinal, se você consegue realmente, acreditar em “...fazer as coisas do jeito certo...”, pouco importando se esse é o jeito certo para você, então basta um pequeno empurrãozinho para que “compreenda” (benditas aspas) que “você precisa ser o que queremos que você seja”, e aí, igual ao índio “Tonto” daquela piada, vem mais uma perguntinha de resposta nada fácil: “Nós quem, cara-pálida?”

Existe uma resposta? Olha! Eu garanto a você que existe sim! E que ela é repetida e desacreditada há muitos anos, eu até posso dizer que a resposta nos é gritada há décadas, mas como disse, também é desacreditada há quase esse mesmo tempo. Sim porque demorou apenas uns poucos anos para que ficasse claro que esse “caminho” não podia ser desfeito e que a necessidade da tal “entidade” (na definição mais reta da palavra) sobrepunha-se a necessidade de um homem ou um grupo deles, fosse qual fosse o tamanho desse grupo.

Não precisa procurar explicações de sci-fi ou nas páginas do “Apanhador nos Campos de Centeio”, na verdade é compreensível e é até simples que ao lutar pela sobrevivência um grupo possa não ter escrúpulos em desmembrar outro, ou TODOS os outros, mesmo que seja toda a sociedade, e tenha a mais absoluta certeza, caro leitor, se alguém quer dizer a você o que é melhor para você e esse alguém não é nem seu pai nem sua mãe, tenha cuidado – e mesmo assim tem muita gente que precisa ter cuidado com os próprios pais!

Eu?! Eu só estou mostrando!

A matéria merece ser lida e, principalmente, pensada:
http://www.terra.com.br/istoe/1879/1879_vermelhas_01.htm

Até a próxima.

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