sexta-feira, 3 de outubro de 2008

NECESSARIAMENTE VOLÁTIL

O que você, meu caro profissional da área de TI, acha do seu trabalho?

Ele é bem bacana, não é mesmo?! Ele é muito legal!

Sua área de trabalho é uma coisa importante, algo imprescindível para a evolução do mercado, seja do seu país ou do mundo todo, não é?

NÃO! Não é não!

Eu sinto muitíssimo decepciona-lo, meu querido amigo, mas o trabalho diário do profissional de informática não significa absolutamente nada!

Ah! Eu sei! Já tem um querendo torcer o meu pescoço ou cuspir em mim, isso sem falar dos que desistiram de continuar lendo o texto assim que viram o “absolutamente nada” aí em cima, afinal quem eu penso que sou para dizer uma coisa tão estapafúrdia como essa? O que eu penso ser para me arvorar o direito de fazer uma declaração tão cretina como assim?

Bom, meu querido e já nervoso amigo, atualmente eu sou um analista de sistemas já tendo vivido na pele de programador, analista de suporte a banco de dados, analista de infra-estrutura, DBA e outras funções mais ou menos nobres conforme a visão de quem lê, tive até o privilégio de ser estagiário e repito: nosso trabalho não é nada!

Nada se comparado a uma pirâmide como a de Quéops, por exemplo.

A pirâmide tem lá seus 5000 anos, nosso trabalho, muitas vezes não dura nem 5 semanas e quem trabalha para o governo sabe muito bem disso. Eu tenho um triste exemplo, em meu currículo, de uma tarefa cujo resultado não durou sequer 5 dias. Há pouquíssimo tempo, já em minha nova atividade (que, aliás, estou curtindo e, mais, sendo curtido – como o couro), teve uma modelagem que foi guardada na gaveta assim que foi entregue, e está lá até agora, enquanto escrevo esse texto. E dizem que, se sair, terá de ser refeita para “atender novas demandas”!

Entenda meu, ainda irritado, caro leitor: é claro que cada trabalho tem seu “tempo de vida”, isso é absolutamente normal para todos, tudo bem! Mas nós da TI temos um estranho prazer em desenvolver alguma coisa, analisar alguma coisa, configurar alguma coisa, com a certeza da eternidade ou algo parecido bem lá no fundo de nossas consciências, ou ali por perto. E sabe o que isso gera? Isso gera uma tremenda frustração quando vemos o trabalho cair por terra, ser deferido em prol de outro “mais bonitinho” ou que tem “um tio forte” ou porque é bem melhor que aquela telha (¹) que fizemos, por que não?

E isso é uma tremenda injustiça com qualquer um, com você mesmo, comigo mesmo (é claro que estou nesse time), porque nos deixamos levar por uma necessidade adquirida, algo que, de repente, passamos a abraçar como nosso... E não é! Mas não é mesmo! Desde quando você precisa desesperadamente saber ou, ao menos, acreditar que é importante para mais alguém que não seja você e os seus? Ainda mais quando, certamente, esse alguém ou não sabe da sua existência ou está querendo (não é preocupado, é querendo) resultados práticos? Afinal de contas por que você precisa abrir os caminhos para uma nociva decepção acreditando em bites&bytes, que podem desintegrar frente a qualquer ímã mal colocado (ou um pulso eletromagnético, mesmo), mas por que esses tantos “zeros&uns” podem ser vistos como uma base sólida para a construção da sua pirâmide de Quéops?

Por que você tem que fazer parte de algo eterno, se você já é eterno?

Não! Não vou dar cores religiosas ao texto, de jeito nenhum, embora comungue com uma boa parte da visão de Einstein sobre Deus (apenas uma boa parte), mas isso é papo para outro artigo - se é que, um dia, vou me atrever a isso, meu caro Max Jammer – aqui o assunto é, “apenas”, a eternidade da TI ou de outras tantas muitas opções profissionais.

Convenhamos, dentre as profissões que estão por aí, talvez o profitente (gostei dessa palavra) tenha o resultado mais eterno na sua ação profissional, afinal o que aprendemos, segundo dizem, segue conosco pela eternidade de nossa curta existência até o inexorável fim, ou até um Parkinson nos pegar de jeito, ou alguém resolver mudar as coisas como é o caso da reforma gramatical que me cai na cabeça (como vou viver sem meus tremas, como?)

Mas você, meu caro profissional de TI, que está aí lendo minhas divagações e pensando seriamente em arrumar coisa melhor para fazer, consegue entender por que seu trabalho (o nosso trabalho) não significa nada?

É porque ele NUNCA se firma, NUNCA “fica pra semente” como dizem os mais velhos, ele desvanece com o tempo e, bem sabemos na verdade, não é um tempo tão longo assim!

É claro, você me lembrará da telecomunicação, dos avanços tecnológicos “que vieram para ficar” e eu, sem esforço, apenas pedirei que relembre quanta coisa “veio para ficar” nesses últimos 5 anos e acabou por dar espaço para outras tantas que também vieram para o mesmo fim. Veja as, já notoriamente verdadeiras, “Tecnologias Disruptivas”(²), elas correm em paralelo em mercados alternativos por algum tempo e, de repente, substituem tudo aquilo que você se orgulhava de ter economizado para comprar, e por um preço bem menor ainda por cima.

Mas seja disruptivo ou não, o trabalho da quase totalidade dos programadores, dos analistas, dos DBA, todos os CIOs, todos os gerentes de projetos e aí por diante naquelas profissões de TI geradas pela demanda de serviços, é volátil como éter!

E o outro lado da moeda? Onde fica?

Aqui ó: Felizmente essa profissão não é de trabalhos eternos e nem nunca será, afinal de contas, se as empresas estivessem satisfeitas com suas planilhas em VISICALC, o EXCEL nunca existiria, o OFFICE seria algo da ficção científica e WINDOWS nunca passaria de uma palavra inglesa para “janelas”, o que, para alguns mais conscientes, seria uma proximidade com o sétimo céu. Mas vou logo avisando que uso o WORD para escrever meus artigos!

O que seria de nós, atuais profissionais de TI, quase 40 anos depois do brilhantismo de Dan Bricklin? Haveria um UNIX e, por derivação, um LINUX, se o mercado estivesse saciado em sua sede de velocidade, respostas rápidas, bom desempenho e segurança de informação? Será?

Aliás, meu caro leitor da área de TI, tenha a mais absoluta certeza, e a essa altura já não é tão difícil assim, que o mercado dita o prazo da eternidade de nossos trabalhos ou das ferramentas que usamos hoje em dia, até mesmo quando somos tomados de assalto por uma daquelas “tecnologias disruptivas”, essa já vem com alguma “grife” por trás mesmo que sob a forma de algum nome fantasia que esconda as “sonys” da vida, então, vendo assim, é bem mais simples de entender por que nosso trabalho não é e nem deve ser tão imprescindível e eterno quanto você ou eu gostaríamos que fosse.

Acho que aqueles que me execraram no início do texto, devem estar pensando em meditar um pouco melhor sobre essa “volatilidade” de nossas profissões. Pelo menos, posso garantir, eu sou muito agradecido a ela. Não fosse esse fim precoce a que algumas de nossas ferramentas, métodos e resultados se submetem em períodos de ciclos indefinidos, a grande maioria de nós estaria em outras profissões, o que não podemos sequer arriscar dizer se, por um acaso, seria melhor, pior ou a mesma coisa. Considerando essas duas faces de um assunto tão mais rico que esse breve resumo a que me atrevo, dá para dizer sem susto que operamos em um universo profissional cuja volatilidade é absolutamente necessária tanto para sua manutenção quanto para sua (nossa) evolução!

Aliás, falando em mercado e VISICALC, você sabia que o Dan Bricklin não ficou rico com sua planilha eletrônica?... Que o LOTUS 1-2-3 rendeu horrores e que a dona do OFFICE fatura milhões? (acho que essa última todos sabemos)

Pois é!

É assim que o mercado funciona!

Mas isso bem pode ser um outro artigo, mais tarde!

Até a próxima!


(¹) Para os que não sabem, nos tempos coloniais, e ainda hoje em alguns lugares, as telhas eram moldadas nas coxas dos trabalhadores. Acho que me fiz entender, não é?!

(²) http://www.profissionaisdetecnologia.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=147

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